Poucos livros conseguem unir a força da literatura com a profundidade da prática pedagógica como O Poema Pedagógico, de Anton Makarenko.
Escrito entre as décadas de 1920 e 1930, o livro é muito mais do que uma narrativa sobre educação: é um retrato da reconstrução humana em meio às ruínas de uma sociedade marcada pela guerra, pela pobreza e pela desigualdade.
Ao mergulhar nessa obra, é impossível não perceber como Makarenko transformou um desafio social em um verdadeiro laboratório de esperança. Ele foi chamado a dirigir a Colônia de Trabalho Górki, na Ucrânia, uma instituição para jovens abandonados e delinquentes juvenis. Mas, em vez de punição e controle, o que ele ofereceu foi sentido, responsabilidade e pertencimento.
Educar pelo coletivo
Makarenko acreditava que educar não era apenas ensinar, mas criar condições para que o ser humano pudesse reconstruir sua dignidade.
Na Colônia Górki, os meninos e meninas, antes marginalizados, passaram a participar da vida coletiva por meio de tarefas compartilhadas, autogestão e disciplina consciente. Cada um tinha um papel — e todos eram responsáveis pela sobrevivência e pelo sucesso do grupo.
Era uma pedagogia do cotidiano: feita de trabalho, estudo, arte e convivência.
Makarenko acreditava que o sentimento de dever e honra era fundamental para o crescimento pessoal. Mas, ao mesmo tempo, ele defendia que a educação deveria estar permeada pela alegria e pelo otimismo. Afinal, como ele mesmo escreveu:
“O ser humano não pode viver no mundo se não tiver pela frente alguma coisa jubilosa.”
Essa frase sintetiza a essência de sua proposta: formar pessoas éticas, solidárias e esperançosas, mesmo diante das piores condições históricas.
O poder da cultura e da arte
Outro aspecto fascinante do Poema Pedagógico é o papel da arte na formação dos jovens.
Na Colônia, a leitura, o teatro e as atividades culturais eram parte central do processo educativo.
Os educandos liam Máximo Górki — escritor que inspirou o nome da Colônia — e se viam refletidos em suas histórias de superação. Górki, que também viera da pobreza, se tornou símbolo de coragem, dignidade e transformação.
Essa identificação literária transformou os jovens. Eles passaram a se reconhecer como protagonistas de suas próprias vidas. Makarenko entendia que a arte era uma ponte entre o sofrimento e o sentido, entre o passado e o futuro.
A literatura ajudava a curar feridas invisíveis e a despertar o desejo de ser melhor — não por imposição, mas por convicção.
Uma pedagogia da responsabilidade e da esperança
O Poema Pedagógico é, acima de tudo, um testemunho de fé na capacidade humana de mudar.
Makarenko via na educação um instrumento de emancipação, não de domesticação. Ele acreditava que a escola — ou, no caso, a Colônia — deveria formar pessoas politicamente conscientes e eticamente responsáveis.
A educação não se limitava à alfabetização: ela era um projeto de transformação social.
A Colônia Górki se tornou, nesse sentido, um microcosmo do que Makarenko imaginava para a sociedade: um espaço onde o trabalho coletivo, a cultura e a disciplina se unem para construir um novo ser humano — ativo, criativo e solidário.
Por que Makarenko ainda importa
Mais de um século depois, as ideias de Makarenko continuam profundamente atuais.
Vivemos tempos de individualismo, ansiedade e fragmentação — e sua proposta nos lembra que educar é, antes de tudo, formar laços.
A pedagogia de Makarenko mostra que o aprendizado verdadeiro acontece quando há propósito, convivência e amor pelo coletivo.
Hoje, talvez mais do que nunca, precisamos resgatar esse ideal: o de uma educação que não apenas transmite conhecimento, mas inspira transformação.
Uma educação que acredita no ser humano — não como ele é, mas como ele pode se tornar.
“Makarenko nos ensina que educar é um ato de coragem. E que o verdadeiro poema pedagógico é aquele que se escreve todos os dias, com trabalho, com esperança e com gente.”
