Durante a pandemia da Covid-19, muitas escolas fecharam suas portas e migraram para o ensino remoto. Mas nas APAEs — instituições que atendem pessoas com deficiência intelectual e múltipla — o desafio foi ainda maior. Como interromper o vínculo com alunos que dependem tanto do contato humano? Como garantir o aprendizado e o acolhimento quando o toque e o abraço se tornaram arriscados?
Essas foram algumas das questões que moveram a pesquisa desenvolvida por Eudemir Luis Karpinski, sob minha orientação, sobre a atuação da Psicologia Escolar e Educacional nas APAEs do Planalto Catarinense durante a pandemia. O estudo ouviu psicólogas de diferentes municípios da região e revelou um retrato sensível e inspirador sobre o trabalho de quem esteve na linha de frente do cuidado emocional e educacional em tempos de incerteza.
Psicologia que escuta e acolhe
Nas APAEs, o papel da Psicologia vai muito além da avaliação e do diagnóstico. O psicólogo é um mediador de relações: entre alunos, professores, famílias e toda a comunidade escolar. Durante a pandemia, essa função se tornou ainda mais essencial.
Muitas famílias se viram sobrecarregadas com os cuidados e com o ensino em casa. Professores enfrentaram o desafio de transformar suas práticas em formatos digitais, muitas vezes sem estrutura ou preparo. Nesse cenário, as psicólogas das APAEs precisaram se reinventar: ofereceram escuta, apoio emocional, orientação e acolhimento.
Foi um tempo de adaptação — de encontros por vídeo, mensagens no WhatsApp e atividades enviadas por kits impressos. O mais importante era não deixar ninguém sozinho. Porque o isolamento físico não podia se tornar isolamento humano.
Mesmo com tantas limitações, o estudo mostra que as profissionais conseguiram manter o foco naquilo que sustenta o trabalho da Psicologia Escolar: o desenvolvimento integral da pessoa, respeitando o ritmo, as emoções e as possibilidades de cada aluno.
Desafios que também transformam
O estudo revelou que a maioria das psicólogas das APAEs do Planalto Catarinense trabalha com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) — uma abordagem que ajuda a compreender e reorganizar pensamentos e comportamentos, especialmente importante para alunos com deficiência intelectual ou transtornos do espectro autista.
Mas a pandemia mostrou que, mais do que técnica, o que sustentou o trabalho dessas profissionais foi a empatia. As dificuldades com a tecnologia, a falta de acesso à internet e o medo da contaminação exigiram criatividade e resiliência.
Muitas relataram impactos na própria saúde mental — ansiedade, cansaço, sensação de impotência — e, ainda assim, seguiram cuidando dos outros. Isso nos lembra de algo essencial: quem cuida também precisa ser cuidado. A formação continuada e o suporte emocional aos profissionais da Psicologia são investimentos necessários para manter viva a qualidade desse trabalho.
O valor do encontro
Mesmo diante do distanciamento, a pandemia reforçou o valor do encontro — ainda que mediado por telas ou papéis. A convivência é parte fundamental da aprendizagem e do desenvolvimento humano, especialmente nas APAEs, onde o contato social é também terapêutico.
A volta às atividades presenciais trouxe novos desafios: readaptar os alunos ao convívio, respeitar protocolos e lidar com o medo. Mas também reacendeu o que há de mais bonito na educação inclusiva — a alegria de estar junto, de trocar, de aprender com o outro.
Hoje, olhando para trás, é possível ver o quanto esse período ensinou à Psicologia Escolar. Ele mostrou que o papel do psicólogo na educação não se limita a resolver problemas, mas a criar condições para o florescimento humano, mesmo nas situações mais adversas.
Um legado de cuidado e esperança
A pesquisa evidencia que o trabalho das psicólogas das APAEs é essencial não apenas para os alunos, mas para toda a comunidade escolar. Elas são pontes: entre o afeto e o conhecimento, entre a escola e a família, entre o medo e a esperança.
O legado que fica é o da presença que acolhe — mesmo à distância. É a lembrança de que a educação inclusiva se constrói todos os dias, na escuta, no olhar e na crença de que cada pessoa, com suas diferenças e desafios, tem um lugar no mundo.
“Mais do que enfrentar a pandemia, essas profissionais enfrentaram o silêncio do isolamento com a força do cuidado. E isso é o que define a verdadeira essência da Psicologia Escolar: transformar realidades através do vínculo humano.”
